Isso

​Algo nos espia.
Observa-nos por detrás das cortinas do tempo.
Nas sombras dos mares profundos.
Nas peles carcomidas pelo sol.
Nas febres abrandadas pelo gelo.
Nas comidas digeridas em bailes e festas.

​Uma barriga de dragão faminto e irascível.
Um laivo duvidoso e escuso.
Um grito arrogante e inútil.
Uma boca saudável e furiosa.

​Na obscuridade das palavras.
Nas frases confusas de um poema.

​Algo nos devora.
Ao dente.
Ao passo.

Quando corremos,
somos palhaços de circo
em pernas de pau.
Nossas acrobacias,
tão inúteis quanto uma pérola
em um furacão.

​Essa coisa não tem som.
Não tem cheiro.
Não tem cor.
Não tem gosto.
Essa coisa não existe e, mesmo assim, você a sente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.