A vida nunca espera

​A vida nunca espera. Ela nos joga em mil redemoinhos, nos aprisiona em um labirinto com paredes pintadas de esperança, de sonhos impossíveis — como se uma entidade maligna nos tecesse o fado.

​A vida NUNCA espera. Ela nos empurra como uma deusa impaciente e cruel, sedenta por sacrifícios. Exige de nós os mais infames esforços para, talvez, um dia, nos dar alguma recompensa.

​Quem espera pela vida irá carregar sonhos mortos. Minará qualquer centelha de esperança. Apagará do peito toda fagulha que lhe permitiria ver em meio à escuridão.

​Esperar pela vida é aguardar beija-flores no deserto. É crer na ajuda da própria água que afoga. É negar que a teia da aranha serve para capturar incautos. É ver, imóvel, a aproximação do animal peçonhento.

​Quem não aprende a olhar, ávido, para o sol que lhe abrasa o rosto; quem não está disposto a suportar a dor; quem deixa pender como papel molhado seus mais caros desejos — se afogará em mágoas; olhará, sempre triste, para o passado.

​Melhor se arrepender pela estrada percorrida do que pelo caminho não trilhado. Esperar não transforma água em vinho, não revolve a terra nem espalha sementes.

​Quem espera pelo trem da vida é atropelado por ele. A locomotiva não para. A cada um cabe o esforço para não cair nos trilhos. De ser um maquinista e não apenas mais uma engrenagem da grande máquina.

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