Sobre os escritores

Há três tipos de escritores: os que escrevem para si, os que escrevem para os outros e os que escrevem para a História.

Os que escrevem para si desejam, primordialmente, expressar-se. Sua escrita está associada ao prazer de escrever. Não costumam atentar para a técnica, praticando uma escrita automática e espontânea. Como seu principal objetivo é a autoexpressão, não têm o hábito de estudar crítica literária e, consequentemente, de criticar seus próprios escritos ou os alheios.

Os que escrevem para os outros desejam ser lidos pelo maior número possível de pessoas. Sua escrita está associada ao aspecto “artesanal” da linguagem, seja esse trabalho prazeroso ou não. Estudam a técnica, como forma de fazer um melhor uso da escrita para cativar o leitor. Sua escrita não é espontânea, mas estudada, pendendo para um fim específico: a comercialização do livro, visto como produto e entretenimento. A autoexpressão, aqui, fica em segundo plano. O importante é escrever para ser lido por alguém e, de preferência, por muitos.

Os que escrevem para a História desejam realizar uma obra que fique para a posteridade, que entre para o cânone literário. O objetivo, não raro, é “perpetuar-se através dos tempos por meio da escrita”. O corpo morre, mas a letra permanece. Nem é preciso dizer que, dos três tipos de escritores mencionados aqui, esse é o mais ambicioso e obsessivo. Tanto o prazer quanto o sofrimento estão submetidos a um objetivo transcendente. A técnica é permanentemente desenvolvida, servindo como meio para a criação de formas originais de escrita.

O que difere um tipo de escritor do outro é a sua “linha de horizonte”, seu objetivo, sua prioridade. Nenhum tipo, porém, é puro: mesmo naquele que deseja escrever somente para expressar-se, há uma centelha, um mínimo desejo de, pelo menos uma vez, escrever algo tão bom que mereça permanecer na História. Por outro lado, quem escreve buscando a perfeição, nem que seja por alguns instantes, deixa-se levar pelo prazer de simplesmente escrever por escrever.

O primeiro traz um pouco da aspiração do terceiro, sem estar apto a realizá-la. O segundo, embora domine a técnica, não aspira a fazer voos tão altos a ponto de escrever um clássico. Já o terceiro não pode contentar-se em simplesmente escrever por escrever, nem pode dar-se por satisfeito com o domínio da técnica: é preciso ir mais longe!

É possível conciliar, em um nicho literário, esses três tipos? Um é prejudicial ao outro ou benéfico? Um é melhor que o outro? Em quê? São independentes ou interdependentes?

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